Há alguns anos acompanho a indústria de fundos de investimento e percebi que bancos se fundem, novas empresas gestoras de recursos chegam ao mercado, mas nada de realmente significativo muda no mapa de ranqueamento disponível no site da Anbima com relação ao “market share” das três maiores gestoras de recursos do país.
De acordo com dados divulgados, Banco do Brasil, Itaú e Bradesco juntos detêm sempre perto dos 50% desse mercado. Para ser mais precisa, esse volume atingiu 50,1% no fim de agosto.
Sempre me pergunto o porquê de o brasileiro agir assim. Afinal, quando estamos com um problema de coração, procuramos um cardiologista. Se temos problemas na pele, um dermatologista, e assim por diante. Ou seja, estamos sempre buscando especialistas. Daí vem minha inquietação: por que os brasileiros investem em fundos de investimento geridos por instituições generalistas e não por especialistas, no caso as empresas de gestão de recursos independentes?
A indústria de fundos de investimento é muito grande e já supera R$ 1,5 trilhão. Um trilhão de reais é um valor um tanto grande para nos fazer parar alguns instantes para refletir sobre esse mercado.
A tabela da Anbima mostra que as oito maiores gestoras de fundos são responsáveis por 74,9% desse mercado, ou R$ 1.122,8 bilhão sob gestão. São todas ligadas a bancos ou o próprio banco. Apenas em nono lugar aparece a BNY Mellon Arx. Finalmente alguém independente no Brasil. Ufa!
Depois de tanto refletir e do “feedback” recebido de alunos e investidores, cheguei a algumas conclusões. Em primeiro lugar, e pela experiência que tenho em lidar com investidores, percebi que muitos deles não têm o correto entendimento do papel de cada participante do mercado de capitais. O que faz uma corretora? O que é uma distribuidora, uma asset ou um agente autônomo de investimentos?
De repente, com o modismo dos IPOs, alguns já entendem que para comprar ações na bolsa, só por intermédio de uma corretora. Entretanto, sei que diversos investidores de bolsa se utilizam de bancos para comprar ações. Nada contra o fato, porém faço aqui uma ressalva. Muitos se utilizam de instituições que não têm corretora e esses bancos terceirizam o serviço, recebendo parte da corretagem gerada.
Acredito que os clientes devem ter assinado algum documento tomando ciência do fato, mas, pela minha experiência em sala de aula e ouvindo investidores, muitos deles não se dão conta disso. O problema não está em usar o serviço de terceiros, mas sim em não saber que está utilizando o serviço de uma corretora que não faz parte do grupo do banco.
Também, por não compreenderem corretamente que um fundo de investimento encontra-se apartado do banco, sendo um condomínio de pessoas com objetivos comuns de investimento e com demonstrativos financeiros a parte, a percepção que esses clientes têm sobre o produto “fundos” é que o risco que correm ao aplicar em um fundo de investimento é o risco do banco. Em outras palavras, ao investir em um fundo, muitos investidores acreditam que estão investindo no banco.
Posso falar com muita clareza sobre esse tema porque treino executivos do mercado financeiro para as provas de certificação. Se nem mesmo muitos gerentes de bancos têm essa compreensão clara sobre fundos, que dirá os clientes, que, na sua maioria, aplicam sem ler o prospecto do fundo.
Toda essa questão passa por educação financeira. Por já ter morado no exterior e trabalhado com o mercado internacional, vejo que estamos engatinhando nesse campo minado de gestão de recursos. Ainda temos uma longa caminhada até atingirmos a maturidade de ambos os participantes: investidores e profissionais. Mas tenho certeza de que estamos no caminho certo desse amadurecimento.
De um lado temos as exigências dos órgãos reguladores em termos das certificações exigidas dos profissionais. Do outro lado, temos investidores cada vez mais informados. Oxalá tudo dê certo no longo prazo (tomara que não seja tão longo!) e vejamos mais investidores aplicando seus recursos nas assets especialistas através de seus distribuidores.
Se uma dor no coração nos remete ao cardiologista, por que não buscar fundos geridos por assets especialistas para realizar um investimento?
Publicado no jornal Valor Econômico, em Palavra do Gestor, em 10/11/2010
novembro 11, 2010 às 1:29 pm |
oi
meus parabens!!
li ontem seguindo instrucoes da minha mestra prof. Lilian
leio o valor todos os dias.
a verdade eh que ignorancia,seguranca e preguiça
me parecem o trinomio adequado.para o tema.
o artigo estava m. bom e bem escrito.
abs
Thomas Weiss ( seu aluno no curso para CPA 20 no invest total)
novembro 11, 2010 às 4:50 pm |
Sem embargo da falta de informação de investidores em geral. a razão principal da concentração nos grandes bancos a meu ver decorre dos custos envolvidos, na transferência de recursos, na reciprocidade que os bancos exigem por via direta ou indireta(oferecendo rankeamento de clientes para descontos em taxas etc)
Assim fica máis fácil concentrar todos os tipos de operações que envolvam investimentos, pagamentos, porque as vantagens de rendimentos superiores em agentes específicos não são visualizadas tão claramente como as economias e vantagens alardeadas pelos grandes bancos
novembro 12, 2010 às 11:41 pm |
É verdade que falta informação, é verdade também que falta tempo para a maioria dos cliente que tem um recurso bom para aplicar. Eu mesmo que tenho conhecimento de mercado financeiro opero pelo Banco, tanto na compra de ações como aplicando em fundos. Olha que já recebi propostas para abrir conta em corretora e até tentei. Estou sempre ciente das outras opções de investimento e ligado no mercado. O Tesouro Direto está aí para exemplificar o que a Professora Lilian diz na matéria. O custo é bem menor e o cliente prefere aplicar em fundos com taxa de administração de 6% a.a.
É isso aí, cultura para todos. Só não vamos generalizar! Tem muitos bancos que através de suas Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliarios administram muito bem os recursos dos clientes.
dezembro 22, 2010 às 2:07 pm |
Lilian,
parabéns pelo blog! As informações e os esclarecimentos são colocados com muita propriedade.
Abraço,
Villardo Prior
http://www.motivacaomensagem.bolgspot.com
março 8, 2011 às 10:32 pm |
Cara Lilian,
Não sei quem é voce e nem de onde é, mas o fato é que seu blog é muito show.
Cheguei nele por acaso, gostei muito. Ja esta em aba de abertura do meu explorer.
Virei seu fã.
Dagopai
março 9, 2011 às 3:37 pm |
Obrigada, Dagopai. Fico feliz que você tenha gostado. Gostaria de escrever com mais assiduidade, mas a vida atribulada acaba roubando o meu tempo. Em breve lançarei o http://www.liliangallagher.com.br, que está em construção. Hoje postarei mais um artigo no meu blog, que pode também ser lido diretamente do Valor Econômico, EU&Investimentos, Palavra do Gestor.
Mas deixa eu me apresentar: sou professora e Consultora de Investimentos. Estou no mercado financeiro há 20 anos, sempre lidando com investimentos. Já fui de Produtos, Private Banker e há dez anos sou autônoma. Tenho minha empresa de treinamento Investotal Educação, trabalho com Consultoria de Investimentos e escrevo artigos e livros. Adoro escrever.
Um abraço,
Lilian
outubro 11, 2011 às 3:36 am |
[...] um artigo fantástico escrito por Lilian Gallagher, onde descobri que as três maiores gestoras de recursos do país (Banco do Brasil, Itaú e [...]